Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Para que te quero?

Eduardo recostado no sofá da sala de convívio da clínica, sedado, dormente, em pijama, começa a sentir a falta que o instabiliza a espaços. O passar dos dias torna-se doloroso pelas reacções orgânicas habituais de um processo de recuperação desta natureza. Não tão magro como nos dias que antecederam o internamento, melhora o aspecto físico. A disciplina imposta pelos enfermeiros obriga os pacientes a manterem máxima higiene.

 

Poderá estar aqui um ponto de viragem num rumo que viu de perto o abismo, uma declinação vertiginosa.

 

Alguns, os mais vulneráveis, não toleram o regresso à normalidade social pelo sacrifício físico que lhe é adjacente. A violência da cura força a quebra de muitos que sofrem recaídas. Eduardo repara na fuga de alguns colegas. – Já não aguento mais estar aqui dentro, que dores insuportáveis, tenho de pôr-me a andar daqui para fora. Diz um colega com um período de internamento já superior. – Como é que consegues aguentar isto? Ele não responde, assusta-se com a fragilidade que o envolve, tal como aos outros. As reflexões sobre a dificuldade da libertação deste mal suscitam-lhe confusão emocional. Ao tremer, pelo consumo de um vício que luta com todas as forças para o dominar, para se sobrepor ao seu querer e ao desejo pela libertação e regresso à vida, um medo invade-lhe a alma inquieta…

 

- Eu não vou aguentar isto. Pensa para si mesmo com as lágrimas nervosas a cair-lhe do rosto límpido, pálido. A primeira fraqueza num tratamento que pretendem ser eficaz, de reabilitação.

 

Um mês de internamento consecutivo e são-lhe concedidos dois dias junto da família com recomendações de vigilância absoluta. Nessa manhã de sábado, com a mochila às costas, esperando pelos pais na entrada do hospital, Eduardo parecia novamente a criança que era há bem pouco tempo. Emocionado, abraça-os como nunca, nem mesmo em pequeno demonstrava este carinho; não podia retribuir aquilo que não lhe davam. A felicidade instantânea motivada pelos presentes que sempre recebeu não era acompanhada do afecto, de sentimentos vitais para toda a criança.    

 

  

 

    

publicado por jaimepedrosa às 17:40
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