Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

Para que te quero?

 

Em casa, Eduardo revive o passado, toca as suas coisas com a saudade do longo mês de retiro na intensiva cura. Parece animar novamente e lutar com todas as forças para o regresso definitivo ao conforto do qual já se tinha desabituado. O jantar preparado com todo o carinho para acolher com ternura o menino ausente. Pela primeira vez unidos. Quase sempre juntos, porém a desgraça logrou pela primeira vez sentirem-se uma verdadeira família. Eduardo tinha sono, o cansaço arrasador provocado pelos medicamentos. Como sonhava já voltar a dormir na sua cama, no conforto do lar.

Após umas boas horas de sono, o corpo não relaxa e volta a pedir a diabólica solução, o caminho mais fácil para a tranquilidade. Provavelmente, a dose dos medicamentos não seria a mais indicada, a meio da noite suava, sentia desequilíbrios infernais que o atormentavam, faziam-no sentir receio de quebrar e de um regresso à indesejável situação prévia.

 

O que é o homem perante o descomunal poder do vício que envolve o organismo, não lhe deixando margem mínima à vontade, ao querer? Quando querer não é poder, mas uma frágil tendência que submerge pelo desejo físico indomável. – Tenho de arranjá-la agora mesmo. Pensa e ao tremer violentamente apodera-se de Eduardo a solução mais evidente, mais acessível, não evita o recurso à droga. Novamente desaparecido na noite intensa, reencontra-se com aqueles que deveriam ser as últimas pessoas a visitar na curta estadia junto da família.

 

Um passo sem retorno, afunda-se definitivamente no submundo, junto dos moribundos e desgraçados cidadãos, infelizes que não evitam a fuga, mas aquela que mostra o caminho para o abismo.

 

Ninguém sabe onde está Eduardo. O desespero intensifica-se, agrava-se, havia fugido e nem os telefonemas e buscas se revelam eficazes, tudo em vão, ninguém sabia onde ele se encontrava.

 

A uma curta distância de casa, mas afastado de tudo e todos, excepto daquilo com que não consegue deixar de conviver. A falta de dinheiro obriga-o a viver como um marginal, um fora da lei aparente, o que não reflecte a essência deste e de muitos homens que assim se vão arrastando no meio que os evita, rejeita pelo medo. Um comportamento selectivo tão discriminatório como natural e aceitável.

 

Os becos e bairros do Porto são agora a sua casa, não se sente filho de ninguém, preso à droga que o consome, não é encontrado porque ronda os sítios que os outros, os do Mundo real, não ousam invadir.

 

A decadência devora-o de forma avassaladora. Num curto espaço de tempo viu-se forçado a trocar toda uma vida de conforto, o sonho de quase todos por uma miséria que não pediu e que o atingiu de uma forma tão inocente como fatal. Mas será que a história, o percurso de Eduardo não será precisa ou aproximadamente aquela que já vimos ou vivemos tão de perto? A que vitimiza alguém que num aziago dia apenas quis ver o que era novidade, ser um pouco diferente, quebrar a rotina ou demonstrar aos outros que também era capaz. Como o castigo por alguns destes dias é desproporcionadamente austero, cruel…

 

Cerca de um ano passado sem notícias, numa conformação inquietante, desoladora, o telefone toca. Sem esperar nada de novo, até porque já tinha passado o período em que aguardavam as boas novas.

 

Ás secas, ásperas palavras da ciência segue-se um silêncio aterrador, as lágrimas tanto tempo contidas caiem abruptamente da face da mãe de Eduardo. Havia falecido de overdose…

 

Vidas inteiras pela frente retiradas com a violência implacável duma morte cega, não contempladora da inocência, da natural irreverência irreflectida da juventude…            

publicado por jaimepedrosa às 23:58
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3 comentários:
De brmf a 27 de Outubro de 2006 às 10:08
És duro. Um final infeliz. A triste realidade relatada de forma cruel, mas demonstrativa da verdadeira decadência associada ao consumo da Droga. Já agora: vai uma linha?
De Jaime Pedrosa a 29 de Dezembro de 2006 às 05:17
Hola como estas, soy de Barranquilla Colombia estaba buscando una informacion y resulte con este blog y que tenemos el mismo nombre y apellido, coincidencias de la vida.
Eres de Brazil o Portugal??
Si entiendes tu disculpa que no opine del tema que estas exponiendo.
Bueno saludos mi email es djimmy74@gmail.com
Gracias
De jaimepedrosa a 6 de Janeiro de 2007 às 17:25

Sou de Portugal meu homónimo. Um abraço para si!

Viva Garcia Marquez!

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