Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Pureza do interior

 

O pai de Lurdes piora a um ritmo perigosamente irremediável, nada o deverá salvar do inevitável fim. Na tristeza dos dias passados no hospital a visitá-lo e no trabalho árduo diário, Lurdes vai perdendo o ânimo e só a companhia de João a compensa e lhe traz a paz precária, momentânea...

João, pressionado pelos pais que desejam impedir a união de seu filho: - Vais-te juntar à plebe?- questionam com arrogância; com indiferença vai inteligentemente evitando confrontos que em nada resultarão. As mentalidades e o apego aos materiais não se transformam e espera que o tempo ajude à evolução favorável de convicções actualmente irrepreensíveis.

Em casa o ambiente já não é saudável como outrora, os tempos mudaram e o menino que era tão querido e perfeito é colocado à margem, moderadamente abandonado na esperança de um retractamento breve como se de um crime se tratasse e de que não se poderá responsabilizar pelos comandos do coração. Os que se diziam amigos olham-no de lado por se separar da classe que pensam ser superior, excepto alguns poucos e bons que o procuram pela pessoa e não por um espírito de associativismo bacoco dos poderosos e dos pretensamente ricos que igualmente existem em grande número. Nada o demove porém e predispõe-se a lutar pelo que acredita ser a felicidade. Ela sente cada vez mais que ele é a pessoa perfeita para a acompanhar e, receando um afastamento provocado por pressões externas, é-lhe grata, reconhecida e admira-o.

Tempos passados e a morte chega, a certeza do desaparecimento de um pai severo mas amigo é sentida com dor profunda. O impacto ultrapassa limites quando sabe do envolvimento da mãe com outro homem, descobrindo que ela o enganava na doença.

Lurdes não consegue acreditar no Mundo que vive e que nunca esperou que se apercebesse tão cedo e com tanta mágoa. Que mulher era esta que se esforçava por transmitir os valores morais à filha e actua com tamanha falta de sentimento e de escrúpulos.

Ela omite o que sabe com um rancor e repulsa disfarçáveis apenas por um natural e sincero mas previsível sofrimento que a face não desmente. Que vergonha que ela tinha desta mãe miseravelmente adúltera. A necessidade faz com que reparta a mesma habitação,mas escapando o máximo possivel a um convívio hipócrita que a enfurece.   

publicado por jaimepedrosa às 16:32
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2 comentários:
De Ricardo Soares a 19 de Setembro de 2006 às 19:58
Em forma de conto, as palavras fluem. Uma boa escrita, coerente. O tipo de conto que podia virar romance. Não existem 2 Eças, mas, novos talentos precisam-se. Parabéns!

Continua que pelo menos um leitor tens!
De jaimepedrosa a 20 de Setembro de 2006 às 12:08
Bem vindo à blogosfera!

Leitores como tu são necessários ao engrandecimento da escrita em português por quem a sente com aquele sentido patrótico de homenagear os grandes mestres do passado, seguindo humildemente os passos daqueles incomparáveis pela sua excelência, por mero gosto e devaneio pessoal no enriquecimento do ser criativo...

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