Sábado, 20 de Janeiro de 2007

Uma vida nova...


 

Poucos meses passados e a situação do jovem casal estabilizava, melhorava gradualmente, a condição económica já nada tinha a ver com a vivida em Portugal; não dependiam sequer dos familiares.
No plano afectivo, uma evolução que parecia não ter ponto em que estancasse, a vivência em comunhão não prejudicou o relacionamento, muito pelo contrário, tornou-o mais sólido.

 Numa noite de sábado, em que celebram cinco anos de união, Miguel prepara uma surpresa, iam jantar no melhor restaurante da cidade. Luísa deslumbra-se com a apresentação dele para essa noite, não contava com nada especial, revela ansiedade por saber onde a ia levar. Com uma brevidade provocada pela curiosidade e excitação súbita, Luísa apronta-se; ele fica boquiaberto com a elegância do vestido que também ela havia comprado por precaução para uma eventualidade desta natureza. Um vestido preto acetinado, justo, de decote preciso, nem excessivamente provocante, nem demasiado discreto, uma moderação de sensualidade latente, porém respeitável. O casaco clássico, a capa envolvente num estilo senhoril que provoca o sorriso tímido de Miguel. Tudo se parecia como nos filmes românticos e a inexperiência de ambos nestes restaurantes de extremo luxo não os condicionou ou causou qualquer intimidação.
O encantamento suscitado pelo jantar, um passeio junto ao rio não desprovido de inocência de Miguel, o clima estranhamente ameno, percurso finalizado com um beijo tão espontâneo como os de início de namoro e a verdadeira surpresa: uma serenata com acompanhamento de violino junto ao rio, noite iluminada, uma flor e o mistério desvendado com uma simples mão trémula no bolso do seu próprio casaco. Luísa não falava, era um nervosismo de satisfação, beija-o ela agora com a mesma veemência.

Um anel de noivado onde reflectia o brilho dos olhos lacrimejados: Amo-te! A única e bastante palavra soava aos ouvidos numa voz embargada, sincera…            

 

publicado por jaimepedrosa às 16:44
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Sábado, 13 de Janeiro de 2007

Uma vida nova...

O trabalho ia correndo bem, adaptavam-se rapidamente à vida londrina. O mês de Março reservou-lhes uma agradável surpresa: o clube do seu coração ia defrontar o Chelsea num jogo da Liga dos Campeões. Um casal amigo, portistas ferrenhos, solicitou-lhes estadia para poderem assistir ao encontro e conhecer a cidade.
Face às ligeiras saudades da terra e dos amigos este reencontro surgiu no momento ideal, as coincidências permitiram os primeiros sintomas de uma saudade boa porque saciada com uma visita inesperada. A emoção de viver este momento era grande, quando chegaram Sara e Samuel, como bons anfitriões e amigos conduziram-nos, guiaram-nos num conhecimento sintético, como a brevidade da visita exigia, porém com eficácia numa cidade desconhecida para os visitantes.
Ao viverem com intensidade esta visita e o reencontro, o tempo passou rapidamente. – Já só faltam duas horas para o jogo. – diz Samuel entusiasmado, vibrante e sedento de uma vitória histórica. – É melhor irmos já para o estádio. – Miguel atira com um brilho nos olhos, apertando a mão de Luísa com força rumo ao destino.
O estádio estava repleto, em tons de azul, ouvia-se frequentemente o português e confraternizava-se alegremente nas imediações do recinto. Não faltava o bom petisco tipicamente nacional e bom vinho. Os ingleses, numa demonstração de desportivismo associaram-se à festa e não se adivinhavam problemas; com alegria, cânticos entoadas pelas gargantas encharcadas, algumas cargas etílicas normais e a festa fazia-se sentir. Não pensariam que um simples jogo de futebol pudesse ser vivido com toda esta paixão propiciada por uma saudade que já começara a deixar marcas.
A noite fria aquecia por esta envolvência humana, riam-se perdidamente com a folia inglesa e entravam nas disputas saudáveis. – Estes ingleses é que são uns cómicos. - A face de Sara, rosada do frio e algum vinho à mistura, sorria com espontaneidade e contagiava o namorado e os amigos.
O jogo não correu como pretendiam, os ingleses dominaram e venceram, mas a grande vitória do dia foi a de uma alegria que este percalço não condicionou, a noite começava e havia muito que divertir. O sorriso surgiu novamente estampado nos quatro rostos, após uns meros dez minutos de discussão das incidências do encontro.
publicado por jaimepedrosa às 15:21
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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Uma vida nova...

A mãe, Paula, procurou uma vida mais sossegada, os relativos sintomas traumáticos que tinha aconselhavam a pacatez. Após um período de reflexão, cedeu ao intuito de Rogério que a cativou pela paz de espírito que lhe proporcionava. Já não sentia amor, tornou-se insensível em virtude da experiência negativa que viveu. Rogério não tem a beleza de Osvaldo, porém em afecto supera-o em larga escala; consciente de que não é amado e de que ama, todavia confiando que o passar do tempo a conduza à superação do passado e incentive a viver um novo amor.
O filho aceitou este companheiro que se tornou um novo amigo com quem começou a gostar de conviver, depois da natural hesitação inicial; sentia-se confortável com os carinhos que viu a sua mãe receber pela primeira vez.
Miguel, desde cedo uma criança encantadora e simpática, de uma beleza herdada de uns pais que fisicamente se complementavam numa quase perfeição. O tom de pele moreno do pai e os traços perfeitos da mãe conjugaram-se dando origem a um belo rapaz.
         

publicado por jaimepedrosa às 23:51
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Uma vida nova...

O pai de Miguel sempre esteve ligado a um modo de vida fácil, o dinheiro que amealhava era de alguns negócios duvidosos em que constantemente aldrabava o próximo. No escasso convívio que Miguel teve com seu pai na infância e adolescência, apercebia-se a espaços da ilicitude latente na actuação do progenitor. Não se identificando com esta forma de agir, tratou de seguir a conduta correcta dos avós que o fizeram crescer.
Após o divórcio, o comportamento de Osvaldo, o pai de Miguel, alternou entre uma vida mundana e frustradas tentativas de assentar junto de algumas companheiras fugazes. O problema ia sempre esbarrar num único sentido – a violência física e verbal. Ele era testemunha dos sucessivos hematomas que surgiam nas ditas madrastas. Osvaldo conseguiu realmente a proeza de voltar a casar. A infeliz que acreditou ser possível a mudança de um temperamento impulsivo, por vezes de cariz psicopata, não tardou em sofrer as consequências da ira súbita e injustificável provocada por zangadas igualmente inadequadas e descabidas. Já era com naturalidade que o filho encarava estas situações. Por sorte o convívio com o pai também se cinge apenas ao escasso fim-de-semana por cada quinze dias. Miguel tentava ser um pequeno psicólogo que o pai necessitava, era impressionante a maturidade que tinha mesmo enquanto criança.
Com apenas doze anos, numa tarde em que passeava com o pai, interpela-o com um ligeiro nervosismo: Pai, porque batias na mãe? Um olhar tímido e triste…o pai irritado, incomodado pela inquietação do menino: a culpa não é minha, um dia vou-te explicar os motivos do meu comportamento. Assim, fugia à frontalidade das questões difíceis. Com delicadeza pega no filho e coloca-o aos seus ombros no extenso espaço verde em que passeiam e jogam a bola.
De facto, o estranho comportamento de Osvaldo até se reflectia nesta ideia: agressivo para as mulheres, mas sem nunca bater no seu menino. Ele sentia carinho pelo pai, porém também alguma pena pela frustração sentimental que o assola.
publicado por jaimepedrosa às 18:08
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Sábado, 6 de Janeiro de 2007

Uma vida nova...

Luísa tem orgulho em Miguel, para além da atracção vibrante que a imagem dele lhe provoca, tem uma personalidade que admira. O carinho que demonstra ter por ela, o respeito com que sempre a tratou, a bondade para com aqueles que são mais desfavorecidos.

Luísa, nos tempos de faculdade era uma das raparigas mais pretendidas e nada a demoveu da ideia de estar com o namorado que escolheu. Narciso fez de tudo para a cativar, um rapaz que pensava que o dinheiro poderia comprar tudo aquilo que queria. Narciso era o típico jovem convencido, que sustentando as suas convicções de superioridade no poder e no dinheiro, não obstante a qualidade da figura de aparência muito aceitável, julgava ser o dono de tudo. Não foram as boas roupas e os bons carros que fizeram Luísa vacilar, ela não era igual à maioria e, retirando o gosto por ligeiras extravagâncias, caracterizou-se desde sempre pela simplicidade e modéstia.    

Ela não se deixou impressionar pela abundância da família do seu pretendente. Sabendo Luísa do feitio irascível de Miguel em questões amorosas, evitou dizer-lhe o assédio de que foi alvo. Pelo que, a frontalidade com que ele lhe conta as situações em que é envolvido incrementam o seu fascínio. O seu objectivo nunca foi omitir nada, todavia as circunstâncias obrigavam a que usasse este meio para proteger os dois.

Miguel, nos primeiros tempos de namoro pensava que o seu bom aspecto e bons sentimentos fossem insuficientes para Luísa. As moderadas referências a atracção por objectos de bom gosto e por inerência dispendiosos provocavam-lhe hesitação, receando que pudesse ser impressionável por dinheiro. Eram coisas que Miguel não lhe podia proporcionar. O passar dos tempos veio negar este pressentimento, aliviando e confortando Miguel.




Desde cedo Miguel não foi muito favorecido a nível material e sentimental. O primeiro filho de um jovem casal sem rumo certo, pais desempregados, apenas com o apoio dos avós poderia ter uma educação dentro dos parâmetros normais. Pela imprudência dos pais viveria na mais profunda miséria. Este filho surgiu de um dos muitos actos de devaneio dos pais que viviam intensamente a cultura hippie na década de 70. Á custa do esforço dos avós conseguiu estudar e passar continuamente de ano com mérito reconhecido pelos professores. Mas, na infância a crise agudizou-se, os maus tratos que o pai infligia na sua mãe na casa dos avós paternos, onde todos moravam, provocavam um ambiente difícil de aguentar. Foram cinco anos de constante violência física e verbal perante a passividade dos avós. Tudo terminou num divórcio atribulado. Um pai que amava, mas que agredia quem gostava, uma dupla personalidade difícil de explicar e entender para Miguel. Com o processo de divórcio concluído e os caminhos dos pais separados, finalmente Miguel conseguiu aos cinco anos ter um ambiente mais favorável, ao viver somente com os avós, visitando regularmente os pais que entretanto refizeram as suas vidas, adquirindo uma maior maturidade e estabilidade.     

 

 

    

publicado por jaimepedrosa às 17:17
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